terça-feira, 18 de junho de 2013

Segundo horário - cap. 4 (ultimo)

Caiu a ficha de que meus pais não iriam me tirar daquele colégio, e também que não faziam ideia do que realmente estava se passando na minha cabeça naquela época. Minha mãe não fiscalizava as minhas notas – que eram vermelhas – não tinha controle do meu percurso para escola, não sabia se eu tinha amigos e nem nada. Ela só sabia o que eu contava, e acreditava em tudo. Foi aí que eu comecei a mentir.
Mentia tudo. Mentia muito. Não queria mais ir para aquele colégio, onde eu era diferente e inferior a todo mundo, então, resolvi não ir mais. Acordava cedo, me arrumava, entrava no ônibus, descia em um ponto bem longe do colégio, fazia hora vendo vitrines, andando, sentada olhando pro nada, depois pegava outro ônibus e voltava pra casa. Fiquei fazendo isso durante mais de 4 meses. De vez em quando, ia pra escola pra não pensarem que eu morri, daí ligava pra casa dizendo que estava com dor de cabeça, e ia embora.
Comecei a inventar que estava passando nas provas, que tinha amigos, e mais um monte de coisa, achando que não ia dar em nada. Meses depois dessa rotina mentirosa e psicologicamente problemática, a escola sentiu a minha falta, e resolveu ligar pra minha casa e perguntar o por quê que eu não estava indo para as aulas. A casa caiu.
Meu pai foi na escola no dia seguinte, e descobriu tudo. Descobriu que eu já estava em várias recuperações, que eu estava faltando, que eu estava mentindo. Foi uma fase muito difícil na minha vida. Pensei que meu pai fosse me bater, mas não, Ele me tirou da escola, como eu sempre quis, mas me colocou em um colégio publico, pra eu repetir de ano, e como estava muito decepcionado comigo, mau olhava em minha cara. Minha mãe contou essa história para toda família, o que me deixou envergonhada por anos.
No ano seguinte, na escola pública que chamo de escola Y, eu resolvi mudar a minha, sozinha. Resolvi estudar bastante pra reconquistar os meus pais, e também, me permiti fazer amizades ali dentro, com pessoas simples, que me olhavam, me respeitavam, e principalmente: gostavam de mim exatamente do jeito que eu era. Não precisei ter celular, materiais caros nem tênis do ano, ali eu fui aceita de cara limpa. Foi um ano na escola Y que me fez aprender muito. Tanto nas matérias tradicionais, quanto na vida.

Atualmente, não tenho contato constante com os amigos que fiz lá, mas, casualmente, quando os encontro, vejo o brilho no olhar e simplicidade de sempre. Isso tudo mudou a minha vida completamente. Cruzou o meu destino com o de outras pessoas que talvez, se eu não tivesse repetido o ano, jamais teria me aproximado. É aí que a gente pensa em Deus, e no quanto ele é perfeito em suas graças. Tudo o que Ele faz hoje, por mais que pareça sem cabimento, no futuro fará todo sentido. 

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