quarta-feira, 22 de maio de 2013

Segundo horário - cap. 1



Por que nossos pais nunca, ou quase nunca, consideram nossas vontades na hora de tomar uma decisão importante? Não, meus pais nunca se separaram, eu estou falando de outra decisão: mudar de colégio.
Eu terminei a quarta série do primário numa escolinha de bairro, muito boa por sinal, queria morar nela. Lá eu fiz alguns amigos e adorava os professores, o defeito era que ela não oferecia o ensino do ginásio, atualmente chamado de fundamental II. Por isso, tive que sair de lá. Minhas amigas já sabiam para onde iriam, eu não. Torcia para que meu pai me matriculasse na mesma escola que, pelo menos, uma das minhas colegas estivesse. Mas não, ele foi escolher, justamente, uma escola longe pencas, no centro da cidade, onde só estudavam patricinhas e playboys que não gostavam muito de estudar.
Para começar a falar sobre minha repulsa a essa nova escola de gente estranha, devo destacar como era a minha vida e da minha família nesta época. Bom, nunca, nunquinha, fiz parte de uma família rica e socialmente conhecida na cidade. Família humilde, bairro humilde, vida humilde. Se eu queria ser rica? Na verdade, eu era tão feliz que nem pensava nisso. Brincava com meus amigos da rua, tinha vários brinquedos legais, era uma criança muito criativa e ativa, educada e amada pelos meus pais, tinha também aquela avó que toda criança feliz tem ou teve um dia... Enfim, era muito bem resolvida naquele meu universo pequeno.
No meu primeiro dia de aula na escola, que aqui vou chamar de escola X, vi que a minha vida iria ser bem diferente do que eu gostaria. Não consegui fazer amizade com ninguém, não conhecia ninguém, e principalmente, não me parecia com ninguém. Eu era uma criança de 11 anos que nem na puberdade parecia estar ainda. Nem uma gota de seios, espinhas e malícia. Meu primeiro baque foi ver que minhas novas colegas já tinham peitões, tênis caro, fichários imensos e mochilas do ano! Quem era eu ali? Quem é essa menina marrom de cabelos cacheados, nariz de batata, sem atrativo nenhum? Era eu, no meio das atrizes globais.
Na primeira semana de aula, eu ia e voltava de moto-taxi (meio de transporte comum na cidade), depois tive que apenas ir de moto e voltar de ônibus, e por fim ir e voltar de busão mesmo! A escola X ficava no centro da cidade, bem longe do bairro em que eu morava. Era praticamente uma viagem da minha casa até a escola. E eu tinha que me virar sozinha - forever alone =(